PARA QUÊ SERVE UMA RELAÇÃO?

Dráuzio Varella

Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.

Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara uma omelete;  para ter alguém com quem viajar para um país distante; para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso.

Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo.

Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.

Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem corpo um do outro quando o cobertor cair.

Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro ao médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.

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Drauzio Varella é médico cancerologista, formado pela USP. Nasceu em São Paulo, em 1943.Este seu artigo está sendo divulgado pela internet.

Mas o que se vê?

O que se vê desde que o mundo é mundo nos relacionamentos de casais? O que se vê na sua casa, na sua vida, nos seus sonhos e sua realidade de parceria?

Fico assustada que em 2012, os relacionamentos estejam cada vez mais precários e os valores cada vez mais invertidos.

E não estou falando da violência doméstica, nem dos “pop-stars” que trocam de parceiro como trocam de calças e nem mesmo das traições “assistidas” que certos casais optam para “apimentar” a relação.

Estou falando de um dia-a-dia frio, onde duas pessoas habitam a mesma casa mas não se conhecem, onde cada uma tem uma vida independente sem compartilhar o básico, onde o casamento foi apenas uma opção para dividir o aluguel e as despesas.

Me assusta profundamente quando as pessoas se conformam com tão pouco e se condicionam a uma vida mais ou menos só para fazer parte de um grupo, sustentar aparência social ou por pura acomodação e egoísmo.

Egoísmo sim, porque não abrem mão um milímetro de si mesmas pelo outro, mesmo que o outro faça parte de si, da sua vida, da sua casa, da sua cama.

Chega a ser gritante o absurdo que ouço, como exemplo, de homens (maridos, companheiros) que vão dormir no quarto dos fundos para não serem incomodados pelo choro de seu próprio filho. E como se fossem seres superiores, não chegam a pegá-lo sem a “confirmação” por parte da companheira de que eles não farão nada de “errado” em seus colos. Estes mesmos “companheiros” que “assumiram” o filho na Certidão de Nascimento, mas que só vão comprometer-se com ele quando o “pior” já tiver passado e o mesmo possa ser “exibido” para os amigos. E estas mulheres, assumem todas as obrigações para com a criança, mesmo tento que trabalhar no outro dia cedinho assim como seus companheiros, mesmo não estando muito bem de saúde, mesmo com uma casa inteira para arrumar e se conformam com isto, como se fosse natural não ter parceria alguma neste período.

E entre parceiros e parceiras há quem diga que trair é normal, faz parte da “natureza” e aceitam e vivem suas frustrações em silêncio, com medo de perder o que acham que possuem. Não amam a si mesmos, no mínimo por higiene e questões de saúde (pois nunca se sabe com quem e de que forma o “parceiro(a)” se relacionou lá fora) e se apegam à desculpas e justificativas vazias que não convencem nem a si próprios para continuarem naquela vida.

Outros ainda encontram o “amor de suas vidas” em cada esquina, simplesmente “deixando acontecer” um relacionamento após outro e outro e outro sem o mínimo comprometimento verdadeiro com nenhum e a culpa pelo término? Sempre é do outro, é claro.

Em tempos que corpos são descartáveis, construir uma relação de companheirismo verdadeira e duradoura só acontece para adultos de verdade. É preciso discernimento, comprometimento e plena consciência do que se quer, primeiro para si mesmo e depois para quem esta ao lado.

Para viver uma história com alguém, primeiro você tem que saber quem é, o que quer e o que tem a oferecer. Depois tem  que se comprometer com esta outra pessoa que está do seu lado, que tem problemas e defeitos, que tem sonhos e desejos e que quer partilhar tudo, simplesmente tudo, com você.

Se for para ser pela metade, para atender as normas da sociedade, para se acovardar e se justificar em um relacionamento frio e vazio, então não atrapalhe a vida de quem quer mais, de quem quer ser feliz, de quem realmente quer um companheiro(a).

Preste muita atenção ao assumir um relacionamento, sua vida e do parceiro não é um “teste drive”, o tempo passa, os dias passam e há certos sonhos que uma vez destruídos nunca mais poderão renascer.

Com muito comprometimento ainda é difícil compartilhar a vida, questões de cultura, valores e educação tem que ser moldadas aos poucos para que sejam “suportáveis” para os dois, imagina se não houver maturidade suficiente para este primeiro passo?

Esqueça os contos de fadas, o vizinho que diz que tudo na casa dele é um mar de rosas sem espinhos. Até as máquinas programadíssimas dão problema, imagine a “máquina humana” repleta de emoções?

Desejo uma relação firme, segura, companheira e feliz para você! Se conforme apenas, em ser feliz e fazer feliz!

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