Minha Primeira Arma

Minha Primeira ArmaObtive minha primeira arma há uns trinta anos.

Foi fácil, algumas moedas e lá fui eu na mercearia buscar minha arma carregada de balas doces e coloridas.

Naqueles tempos as armas estavam disponíveis para as crianças e em várias cores. Claro que eu, já com talento para ser “chefe de quadrilha”, comprei a preta que era mais parecida com uma “de verdade”. Os componentes da minha “gangue” compraram as suas: vermelhas, azuis, amarelas…o importante era estarmos todos armados até a chegada da próxima remessa de balas, que poderiam vir em corações, ursinhos, imitações de lâmpadas incandescentes ou sabe-se lá o que a imaginação da época mandava.

Fomos aquela “gangue” que respeitava o professor e que se não respeitasse, nossos pais ficavam sabendo pelos próprios “comparsas” e o maior educador de uma era entrava em ação: as Havaianas, deixando suas marcas momentâneas em nosso traseiro e a face vermelha de choro e arrependimento.

Se um dos nossos atirasse uma pedra em um cachorro, eramos vingativos: todos nós, “meliantes” nos uníamos e repreendíamos o “réu” que era julgado e condenado por nossa corte à ficar fora de nossa “gangue” e não podia mais brincar conosco até que mostrasse arrependimento, isso quando não entregávamos a “instância superior”, os pais e novamente as Havaianas executavam sua sentença e tudo estava resolvido.

Nós tínhamos apelidos, todos nós, como toda “quadrilha” que se prese. Nem sempre gostávamos, mas tínhamos que aguentar e ninguém nos defendia disso, pelo contrário, quanto mais irados ficávamos, mais o apelido “pegava” e se perpetuava (algumas vezes, por toda a vida).

Fomos aquela geração que preferiu o lápis, aprendeu a respeitar e se fazer respeitável, que era muito valente quando aprontava suas traquinagens inocentes e totalmente “covardes” perante às punições (esta covardia se chamava respeito). Nós sabíamos quando estávamos errados, sabíamos o que era o certo e que pais, professores e todos os mais velhos estavam com a razão.

Quando víamos uma viatura policial e consequentemente o policial, ficávamos morrendo de medo de suas armas penduradas à cintura, mas quando eles estavam longe, nos exibíamos com as nossas miniaturas cheias de balas de açúcar e jurávamos que quando “fossemos grandes como eles”, iríamos prender todos os ladrões, ninguém mais precisaria temer.

E na nossa época não conhecíamos as palavras sequestrador, contrabandista, traficante e assassino soava como algo bem distante que aconteceu com alguém lá longe e outros contavam pra nos assustar.

O ladrão, única modalidade de bandidagem que conhecíamos, tinha que ser punido, afinal, nós puníamos severamente os que roubavam figurinhas de chicletes que colecionávamos e trocávamos no “bafo”, na hora do recreio. Se alguém roubava uma figurinha era “exilado” da “gangue” até que pedisse desculpas e devolvesse. Se assim o fizesse, estava livre de sua pena e era aceito novamente no “bando”.

Fomos uma infância feliz. Morávamos em casas simples de madeira, um doava a roupa para o outro conforme íamos crescendo, não tínhamos grandes posses mas possuíamos disciplina e imaginação férteis.

Não fomos vítimas do desarmamento, nem da extinção das Havaianas no seu uso por nossos “juízes”, não tínhamos autoridades “de fora” nos protegendo. Aprendíamos a ler e escrever antes de ir para a escola, isto somente quando completávamos 7 anos; eramos criados em alguma religião e sim, Deus ficava triste quando fazíamos algo ruim; aprendíamos a rezar, pelo menos ao Anjo da Guarda que era a oração mais curta e isto tinha muito valor. Os pais revezavam os turnos de trabalho para um deles ficar em casa conosco: minha mãe trabalhava no primeiro turno e meu pai no segundo, naquela hora de desencontro na chegada e partida de cada um, a vizinha quebrava o galho e assim era até que pudéssemos ficar em casa sozinhos responsáveis por nós mesmos, pela casa e pelo cachorro.

Saudades deste tempo cada vez que vejo Deus, os pais, professores e policiais não serem mais autoridades respeitadas acima de tudo e que sim, alguns deles não se fazem respeitar mas a maioria é vítima de uma sociedade que não os deixa desempenhar suas funções, ensinar o que aprenderam, amar no sentido mais verdadeiro que é: cuidar.

Muita coisa evoluiu, é verdade, muito melhorou, porém, a insegurança atual é maior prova de que algo está muito errado, o caminho que alguns adultos impõe para todos os outros seguirem e fazerem seguir às crianças não é aquele cheio de luz, alegria, responsabilidade e sabedoria que já foi um dia.

As armas erradas estão sendo usadas e muitos tiros no pé já foram dados. Não são balas de açúcar e de tão amargas, vitimam famílias e a sociedade todos os dias, em caminhos sem volta e tristezas sem fim.

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