images

Entro em uma loja e considero um produto caro, então a vendedora me diz:
– Pensa bem, esse produto está custando R$ 40,00 mas uma dúzia de ovos já está R$ 6,00 e o ovo é só sair do fiofó da galinha e está pronto, olha o trabalho para produzir isso.
Então eu pergunto:
– Você tem uma galinha?
– Não, claro que não, mas é tão simples.
– É simples ter a galinha, alimentar ela, ter um local para que ela viva e aquecer este local e ter muito mais que uma para fazer muitas dúzias todos os dias. Do fiofó não sai só ovos, tem que limpar e ai recolher, colocar numa embalagem, dai vem um caminhão e transporta estes ovos para um centro de distribuição e depois para o mercado e dai você vai lá e compra por R$ 6,00 e acha que é simples?
– Ah, mas não tem comparação, um ovo você comeu e acabou e isso aqui você vai ter por muito tempo.
– Mas você não tem que comer e beber todos os dias? Sem isso aqui você vive, sem comer não. Se você não comer e bem você não tem saúde, se não tem saúde não trabalha, se não trabalha, não tem dinheiro e se não tem dinheiro não compra nem isso e nem nada.
– Mesmo assim, não tem comparação.
E eu encerrei a conversa concordando.
Afinal, não tem mesmo comparação.

Então vou em outra loja e penso alto pensando estar falando comigo mesma:
– Nossa! Como isso aqui aumentou desde a última vez que eu comprei… (eu nem falei que estava caro, só que aumentou).
Então uma vendedora diz:
– Mas é claro, tudo aumentou, não viu o preço que está o pão?
E outra cliente emenda:
– Pois é, não dá mais nem para comer pão…
Então eu penso em explicar quantos ingredientes vão para produzir o pão e que são produzidos em locais tão diferentes e que vão para as mãos do padeiro, que tem toda a mão de obra e depois são assados no forno que consome tanta energia e por fim uma grande quantidade é desperdiçada, porque aquele que está “pagando caro” quer tudo fresco, feito na hora e nem pensa no que está indo para o lixo, mas eu desisto, porque seria inútil.

Por fim chego em uma feira de frutas e verduras.
Fico observando as conversas:
Tudo caro, tudo “pela hora da morte”, tudo feio, tudo que deveria ser muito melhor e mais bonito pelo preço que se paga.
Então observo uma senhora sentada quietinha quase lá no caminhão do verdureiro.
Puxo conversa e descubro que ela está ali esperando o final da feira porque o feirante doa as sobras do dia e para ela isso faz toda diferença. Disse que boa parte do que come durante toda semana vem dali.
Já olhei o verdureiro de forma diferente, é um herói do dia a dia que contribui melhorando a vidas das pessoas do jeito que pode, enquanto muitos descartam as sobras em qualquer canto.
Mostro para a senhora um objeto de decoração em uma barraca instalada ao lado da feira e ela sabiamente me diz:
– Veja só, isso aqui é muito bonito, custa mais de R$ 30,00, mas você leva, coloca numa mesa ou numa estante para enfeite e fica ali e pronto. Com R$ 30,00 dá para comprar um monte de verduras, frutas, ovos (olha o fiofó da galinha aqui) e para comer muito. Claro que cada produto tem seu valor mas se comparar com a comida, a comida não é cara.

Ela, em sua simplicidade e necessidade entendeu o que aquele que pode comprar não entendeu.
Nunca, jamais, poderemos comparar o valor da comida com qualquer outra coisa, água e alimento são fundamentais e ponto final.
As pessoas se habituam a pagar caro por coisas que poderiam até ser mais baratas se elas não fizessem esta comparação absurda, desproporcional, sem sentido.

Em países desenvolvidos os alimentos são realmente muito caros e o desperdício é punido quase como um crime. Você não pode simplesmente descartar comida e muito menos em qualquer local, você tem que pagar para jogar alimentos fora.
Há centros que cuidam até da última ponta de folha de alface para que não se perca, as pessoas tem o discernimento de que alimentar-se e bem vem em primeiro lugar e que a comida, ao contrário do que a maioria pensa, não é só plantar e colher, ou recolher depois da galinha ponhar.

Não estou aqui para tabelar os alimentos e muito menos outros produtos ou serviços. Estou aqui para dizer que é preciso dar valor ao que se come e se bebe, a quem produz, a quem distribui. Estamos num país rico em produção de alimentos e muitos ainda passam fome.

Vai entender o ser humano…

Anúncios