Arquivo | 2017

Dia do Estudante

Caderno

Saudades talvez ou uma reflexão, a foto é do meu primeiro caderno em sala de aula e naquele longínquo 1987 se chamava a 1ª Série do 1º Grau.

Não frequentei o pré-escolar, fui alfabetizada em casa. Havia uma tradição familiar na época que consistia em colocar vários objetos lado a lado na mesma proporcionalidade ao alcance das crianças que completavam 2 anos de idade. Valia tudo: talheres, ferramentas, objetos de decoração representando bonecas, carros, aviões, artigos para produção de artesanato e costura, lápis, borracha e uma caneta, uma simples Caneta BIC sem nenhum atrativo, mas foi ela que eu peguei e não larguei mais. Diziam que este seria o objeto de trabalho do futuro adulto e reconheço que acabou dando certo comigo e com muita gente.

Lá fui eu, com a canhota rabiscando paredes, cadeiras, mesas e tudo que havia pela frente e assim começaram também meus primeiros rabiscos no papel. Em 1994 meu primeiro emprego não poderia ser outro: atendente em uma papelaria. Soava quase óbvio tal era meu amor por cadernos, livros e todos os artigos de papelaria e escritório.

Também naquele ano de 1994 eu estava me formando datilógrafa como já comentei nesta postagem. Em 1996 já era hora da informática e com certeza a maioria dos leitores nem imaginam o que eram o MS-DOS e o QUATTRO-PRO, mas vamos deixar eles esquecidos lá no passado.

Em 1997 eu me formava Técnica em Contabilidade tendo até ai estudado 11 anos integralmente no ensino público, um ensino tão distante do atual que parecem há 100 anos de distância.

Estudei numa “escola isolada” municipal, assim se chamava na época. Haviam apenas duas salas e era normal duas turmas de séries diferentes estarem ao mesmo tempo em sala de aula: uma virada para um lado e outra para o outro, com um quadro em cada parede e a mesma professora se revesava para dar aulas diferentes no mesmo ambiente. Não houve nenhum problema quanto a isso, cada um sabia o que tinha que fazer e conseguíamos desenvolver o que se esperava de nós.

A partir da 5ª série fui para outra escola, a “básica”, estadual, onde completei o primeiro grau. O segundo foi um “colégio estadual” e foi onde fiz o curso técnico.

As diferenças, além das matérias: religião, preparação para o trabalho, educação moral e cívica eram muitas.

Não se ganhava o uniforme escolar nesta época, ele tinha que ser comprado em lojas do município e os pais eram responsáveis por isso. Como a maioria de nós éramos pobres e morávamos em simples casas de madeira, onde se tinha que dormir com o cobertor sobre o rosto mesmo no verão para não comer “farinha dos cupins”, havia uma troca intensa entre os vizinhos: os maiores iam deixando o uniforme para os menores e como eram idênticos para meninos e meninas (blusa branca, bermuda e calça azuis e a saia de prega só nos eventos especiais) usei roupa de “menino” e minhas roupas “de menina”, exceto as saias também serviram e bem para meninos. Ninguém via nenhuma maldade ou humilhação nisso, era assim, todos se entendiam e se havia alguém extremamente pobre, rifas ajudavam a comprar o uniforme “inicial”, depois todos faziam parte do mesmo rodízio.

Não haviam muros ou portões, no máximo muros de contenção de barrancos. As escolas eram áreas abertas, livres, qualquer um poderia chegar nas portas das salas, conversar conosco na hora do recreio e observar toda movimentação do local. Íamos estudar a pé ou bicicleta e os pais só nos levavam quando tinham que falar com a professora ou em caso de doença, porque estudávamos mesmo com gripe, dor de barriga, dor de cabeça. A professora se tornava a enfermeira e ela mesma diagnosticava se não havia mesmo condições de ficarmos e então pedia para alguém ir chamar os pais ou ela mesmo levava o aluno até em casa, se morasse próximo.

Em 11 anos de estudos não lembro de nenhuma reforma nas escolas, com exceção dos danos causados por inundações ou vendavais. Tudo era feito para durar, da telha a tinta, havia boa qualidade no todo. Se, por acaso, um aluno causasse prejuízo à escola, os pais eram chamados e responsabilizados, todos ficavam sabendo e eram repreendidos para que nunca fizessem igual.

ping pong

Se algo sumia na sala, todas as mochilas eram revistadas até encontrar o “ladrão” e este tinha que devolver o objeto de furto (geralmente uma figurinha de chicletes da Coleção Ping-Pong), pedir desculpas e assumir que nunca mais voltaria a fazer aquilo. Dado o fato e devolvido ao dono legítimo, todos voltavam a brincar juntos como se nada tivesse acontecido.

Se havia bullyng? Este nome nem existia mas sim, havia. Todos tinham apelidos e às vezes, irritantes. Se falasse ou fizesse uma “besteira”, era “zoado” por um bom tempo, ou era implantada uma “greve de amizades”, deixando aquela pessoa isolada por um tempo, mas entre uma choradeira aqui e umas risadas ali, ninguém ficou traumatizado e teve problemas futuros por causa disso.

No caso de desrespeito ao professor ou violência ao colega, havia a expulsão. Os pais eram chamados e convidados a levar seu filho para outra escola. Eu presenciei como aluna apenas um fato: um colega trouxe um esqueiro e colocou fogo no cabelo da colega que sentava à frente. Rapidamente o fogo foi apagado e não houve grandes danos mas foi mais que o suficiente para no outro dia ele, chorando muito, vir despedir-se de nós para todo sempre da vida escolar.

Nunca vi os pais desrespeitaram os professores em suas resoluções por vezes bem duras, muito menos os diretores. Havia um respeito muito grande, estes eram tidos como autoridades e caso dissessem algo, eles tinham razão, os alunos não. Não vi injustiças serem praticadas mas vi muita participação dos pais, que em caso de “anotação no caderno” chamavam a atenção dos filhos para seguirem as regras.

Ninguém era aprovado automaticamente, pelo contrário, se não alcançasse a média 7,0 em todas as matérias, mesmo que faltasse somente 0,5 ponto em uma delas, repetia o ano inteiro  e não havia matéria com menor ou maior importância, todas tinham o mesmo peso. Reprovar era simplesmente o fim do mundo. Não passei na pele, mas sofri junto com colegas que ficaram “para trás”.

Hoje em dia quando vejo a violência contra colegas e professores, depredação das escolas, irresponsabilidade dos pais e dos alunos sem compromisso com o aprendizado, irresponsabilidade pública com instalações inadequadas e até vergonhosas, penso em quanto todos estão perdendo, estas pessoas e a sociedade, que não valorizam o bem principal depois da saúde: o conhecimento.

Ainda bem que há oásis por toda parte, gente comprometida, gente que gosta de ver toda gente melhor, evoluindo e gente que quer aprender, pensar melhor com a mente expandida, ser melhor.

mapa mundi

Repito em todas as conversas sobre a solução dos problemas da humanidade, especialmente do Brasil: quando tivermos um povo com educação de verdade, teremos um país melhor. Que seja a educação sensata, sem ideologias, sem condicionamentos, que não seja vazia e que desperte em cada um o amor pelo conhecimento, o respeito pelo semelhante, a criatividade para resolver problemas e dinamizar o dia a dia e sobretudo, que nos faça ver que o caminho certo é mais longo, mas é e sempre será o  melhor, o nome deste caminho é honestidade, que em mentes conscientes formam uma sociedade com igualdade e felicidade.

Feliz Dia do Estudante!

eu