Gente

Todos os dias acompanho lindas declarações de amor de pessoas que se tornam pais e mães. É até emocionante a forma que expressam terem conhecido o amor de verdade e tudo que fariam pela felicidade de seus filhos.

Não sou mãe, então sou excluída do grupo que conhece o “amor verdadeiro”. É assim que julgam-se superiores aqueles que geraram pessoas para povoar nosso planeta.

Pois bem, todas as vezes que vejo este raciocínio, penso que o nosso mundo deveria ser um paraíso, já que ainda a grande maioria opta ou por descuido acaba tornando-se pai e mãe. Deveríamos viver em completa harmonia, tal é a dimensão extraordinária de amor e esforço para que os filhos tenham uma vida melhor do que é ou possa ter sido a dos pais.

Ou este amor é algo muito egoísta pois exclui totalmente o(a) filho(a) dos outros, num patamar que chega a irracionalidade, pois vivemos em uma sociedade, logo temos que contribuir para o bem estar de todos ou algo se perde profundamente no que deveria nos diferenciar: a humanidade.

Poderíamos entrar nos níveis culturais, nas tradições, crenças, níveis sociais, mas não é necessário, vivemos a desumanidade do amor de forma cada vez mais profunda, impulsionada por ambição, inveja, completa falta de discernimento do que é bom e ruim.

Todo dia, no nosso cotidiano, vemos esta desumanidade sendo praticada e perpetuada nas gerações na forma de preconceito, arrogância, hipocrisia, desonestidade, falta de empatia.

Viver é o que há de mais simples: não fazer ao outro o que não se quer para si, porém, vivemos em uma sociedade em que “eu” sou melhor que você e posso tudo, mereço tudo, em que “meu filho(a)” tem preferência e o seu não importa e vamos construindo muros ao invés de pontes, criando barreiras cada vez maiores e sempre mais nos defendendo de nós mesmos.

Quando chegamos aos nossos governantes corruptos é que a desumanidade passa a ser monstruosa. Pense o que leva uma ou várias pessoas que têm poder sobre o dinheiro alheio roubarem o que pagaria remédios, merenda escolar, infraestrutura e, principalmente, educação. Pense na frieza de pessoas que percorrem os municípios em época de campanha visualizando todo sofrimento de pobres, doentes, marginalizados moradores de rua, instalações públicas precárias, acidentes por falta de estrutura e toda falta de saneamento básico de tantos lugares deste país e, quando eleitos, simplesmente esquecem e embolsam o dinheiro para si e seus filhos, como se os outros e os filhos dos outros não existissem, nada merecessem, mesmo sendo os verdadeiros donos deste dinheiro.

Sim, a corrupção é mais que desumana, só a palavra “monstros” pode aproximar-se da desqualificação de criaturas que matam gerações inteiras no abandono, na violência, no descaso generalizado de quem é, além de político(a) eleito(a), pai e mãe. Você tem realmente certeza que ser pai e mãe é sinônimo de conhecer o verdadeiro amor?

Não estou aqui dizendo que todos pensamos iguais e que somos uma espécie perdida, mas a humanidade deve ser regra e não exceção.

Urgentemente precisamos olhar além do nosso umbigo e rever o sentido da palavra amor; urgentemente precisamos conceber e criar filhos melhores para o mundo ao invés de esperar que o mundo (os filhos dos outros) siravam aos nossos filhos. Urgentemente precisamos de discernimento entre o bom e ruim, certo e errado e o que é viver em sociedade, antes que nos tornemos tão hostis uns aos outros, até o ponto de nossa própria extinção.