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O Que Eu Aprendi Com Você

flor pedra

Sempre estive consciente de tudo. Não houveram promessas, planos, juras de amor ou qualquer atitude que pudessem elevar aqueles momentos ao status de relacionamento. Sim, eu sabia que era uma aventura e que não poderia me iludir, fantasiar, cobrar nada…

De repente me sentia outra e me surpreendia sentindo o que já considerava impossível. Aos poucos fui tirando a armadura que de tão dura, me afastou de mim mesma e que me escravizou em um mundo cinza onde o comprometimento em manter a rotina era a única certeza que me mantinha na ilusão do conforto.

Me vi abrindo exceções, sentindo borboletas dentro de mim, ao invés das eternas lagartas. Quis me tornar mais afável, não tão rígida e falar sobre coisas boas aos invés de martelar os infortúnios da vida e do mundo.

Finalmente me olhei no espelho novamente, quis me ver e me vi bonita independentemente das marcas do tempo, dos problemas e de estar vivendo uma ilusão.

Sem saber você estava me libertando das algemas do passado. Eu estava, finalmente, abandonando a menina decepcionada e fechada no casulo para me tornar uma mulher com desejos próprios acima da lei e da ordem, acima das próprias convicções, acima de tudo que poderia e nunca foi, acima do que me ensinaram a ser e eu sempre fui.

Me vi capaz de aceitar, de compreender, de abrir mão. Nos meus devaneios vivemos eternidades nos milésimos de segundo e eu fui feliz, simplesmente por te sentir respirar perto de mim.

Eu entendi que mesmo querendo conhecer o mundo e todas as suas maravilhas, que no meu desejo quase insano de viver, de ver, de colocar o pé na estrada e me surpreender após a próxima curva, a felicidade pode estar no lugar mais inóspito, assim como era meu coração antes de você. Basta chegar alguém que nos faça ver tudo diferente.

Obrigada por não saber definir entre desejo, paixão ou amor e poder sentir tudo misturado sem nunca chegar em uma conclusão e mesmo assim, valer a pena.

Obrigada por me fazer melhor, por me devolver à vida. Já não me importa o sofrimento, a tristeza, a perda e tudo mais que acontece ou pode acontecer. O que você me deu viverá para sempre em mim como um dos maiores tesouros que alguém pode receber.

Relacionamento Humano

PARA QUÊ SERVE UMA RELAÇÃO?

Dráuzio Varella

Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.

Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara uma omelete;  para ter alguém com quem viajar para um país distante; para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso.

Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo.

Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.

Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem corpo um do outro quando o cobertor cair.

Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro ao médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.

*
Drauzio Varella é médico cancerologista, formado pela USP. Nasceu em São Paulo, em 1943.Este seu artigo está sendo divulgado pela internet.

Mas o que se vê?

O que se vê desde que o mundo é mundo nos relacionamentos de casais? O que se vê na sua casa, na sua vida, nos seus sonhos e sua realidade de parceria?

Fico assustada que em 2012, os relacionamentos estejam cada vez mais precários e os valores cada vez mais invertidos.

E não estou falando da violência doméstica, nem dos “pop-stars” que trocam de parceiro como trocam de calças e nem mesmo das traições “assistidas” que certos casais optam para “apimentar” a relação.

Estou falando de um dia-a-dia frio, onde duas pessoas habitam a mesma casa mas não se conhecem, onde cada uma tem uma vida independente sem compartilhar o básico, onde o casamento foi apenas uma opção para dividir o aluguel e as despesas.

Me assusta profundamente quando as pessoas se conformam com tão pouco e se condicionam a uma vida mais ou menos só para fazer parte de um grupo, sustentar aparência social ou por pura acomodação e egoísmo.

Egoísmo sim, porque não abrem mão um milímetro de si mesmas pelo outro, mesmo que o outro faça parte de si, da sua vida, da sua casa, da sua cama.

Chega a ser gritante o absurdo que ouço, como exemplo, de homens (maridos, companheiros) que vão dormir no quarto dos fundos para não serem incomodados pelo choro de seu próprio filho. E como se fossem seres superiores, não chegam a pegá-lo sem a “confirmação” por parte da companheira de que eles não farão nada de “errado” em seus colos. Estes mesmos “companheiros” que “assumiram” o filho na Certidão de Nascimento, mas que só vão comprometer-se com ele quando o “pior” já tiver passado e o mesmo possa ser “exibido” para os amigos. E estas mulheres, assumem todas as obrigações para com a criança, mesmo tento que trabalhar no outro dia cedinho assim como seus companheiros, mesmo não estando muito bem de saúde, mesmo com uma casa inteira para arrumar e se conformam com isto, como se fosse natural não ter parceria alguma neste período.

E entre parceiros e parceiras há quem diga que trair é normal, faz parte da “natureza” e aceitam e vivem suas frustrações em silêncio, com medo de perder o que acham que possuem. Não amam a si mesmos, no mínimo por higiene e questões de saúde (pois nunca se sabe com quem e de que forma o “parceiro(a)” se relacionou lá fora) e se apegam à desculpas e justificativas vazias que não convencem nem a si próprios para continuarem naquela vida.

Outros ainda encontram o “amor de suas vidas” em cada esquina, simplesmente “deixando acontecer” um relacionamento após outro e outro e outro sem o mínimo comprometimento verdadeiro com nenhum e a culpa pelo término? Sempre é do outro, é claro.

Em tempos que corpos são descartáveis, construir uma relação de companheirismo verdadeira e duradoura só acontece para adultos de verdade. É preciso discernimento, comprometimento e plena consciência do que se quer, primeiro para si mesmo e depois para quem esta ao lado.

Para viver uma história com alguém, primeiro você tem que saber quem é, o que quer e o que tem a oferecer. Depois tem  que se comprometer com esta outra pessoa que está do seu lado, que tem problemas e defeitos, que tem sonhos e desejos e que quer partilhar tudo, simplesmente tudo, com você.

Se for para ser pela metade, para atender as normas da sociedade, para se acovardar e se justificar em um relacionamento frio e vazio, então não atrapalhe a vida de quem quer mais, de quem quer ser feliz, de quem realmente quer um companheiro(a).

Preste muita atenção ao assumir um relacionamento, sua vida e do parceiro não é um “teste drive”, o tempo passa, os dias passam e há certos sonhos que uma vez destruídos nunca mais poderão renascer.

Com muito comprometimento ainda é difícil compartilhar a vida, questões de cultura, valores e educação tem que ser moldadas aos poucos para que sejam “suportáveis” para os dois, imagina se não houver maturidade suficiente para este primeiro passo?

Esqueça os contos de fadas, o vizinho que diz que tudo na casa dele é um mar de rosas sem espinhos. Até as máquinas programadíssimas dão problema, imagine a “máquina humana” repleta de emoções?

Desejo uma relação firme, segura, companheira e feliz para você! Se conforme apenas, em ser feliz e fazer feliz!

O Amor Acaba

Eu não poderia deixar de reproduzir aqui um trecho do livro “O Amor Acaba” de Paulo Mendes Campos, publicado pela editora Civilização Brasileira.

Ele conseguiu descrever nossa realidade, embora alguns considerem depressivo, eu vejo como uma verdade crua, daquelas que as vezes não queremos enxergar, mas acabamos vivenciando na pele, na arte de viver um dia após o outro.

                                                      O amor acaba.

Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio;
acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar;
de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas;
na acidez da aurora tropical, depois duma noite voltada à alegria póstuma, que não veio;
e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão;
como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado;
na insônia dos braços luminosos do relógio;
e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos;
e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão;
às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres;
mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia;
no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar;
na epifania da pretensão ridícula dos bigodes;
nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas;
quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar;
na compulsão da simplicidade simplesmente;
no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina;
no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores;
em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo;
e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir;
em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero;
nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada;
em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba;
no inferno o amor não começa;
na usura o amor se dissolve;
em Brasília o amor pode virar pó;
no Rio, frivolidade;
em Belo Horizonte, remorso;
em São Paulo, dinheiro;
uma carta que chegou depois, o amor acaba;
uma carta que chegou antes, e o amor acaba;
na descontrolada fantasia da libido;
às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes;
e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros;
e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York;
no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor;
e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados;
e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo;
na janela que se abre, na janela que se fecha;
às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo;
às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido;
mas pode acabar com doçura e esperança;
uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor;
na verdade;
no álcool;
de manhã, de tarde, de noite;
na floração excessiva da primavera;
no abuso do verão;
na dissonância do outono;
no conforto do inverno;
em todos os lugares o amor acaba;
a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba;
para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.